Vozes
Silenciadas

Conheça a pesquisa que analisou a cobertura da mídia sobre o derramamento de petróleo na costa brasileira

Apresentação

Se 2020 entrará para a história como o ano em que o Brasil e o mundo enfrentaram a pandemia do novo coronavírus assistindo ao aprofundamento de desigualdades estruturais e trazendo à tona o debate sobre os limites da globalização capitalista, 2019 vai ocupar espaço na história do país como um ano marcado pela ocorrência de tragédias socioambientais de proporções catastróficas. Embora os conflitos socioambientais tenham origens históricas anteriores a este século, originadas com o projeto colonizador, o que o Brasil viveu nos anos recentes e, particularmente em 2019, chama atenção pela confluência e pela força destrutiva de episódios trágicos.
Após um início de ano marcado pelo rompimento da barragem de Brumadinho Córrego do Feijão, operada pela Vale, cujo resultado foi o de 256 pessoas mortas e 14 que seguem desaparecidas em Minas Gerais, o país foi impactado, em agosto de 2019, com o aparecimento de manchas de petróleo ao longo da faixa litorânea que adentrou diferentes rios, mangues e estuários.
Dez meses depois do aparecimento das primeiras manchas do petróleo, o governo federal segue sem respostas sobre a possível origem do material. O último balanço feito pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), de 20/03/2020, revela que 1.009 localidades, de 11 estados e 130 municípios brasileiros, foram afetadas. A extensão da área contaminada coloca esse evento como o maior desastre por derramamento de petróleo cru do Oceano Atlântico Sul. A gravidade, a duração e a extensão dos impactos ainda são imensuráveis pela ciência, mas já se evidenciam efeitos de enorme severidade sobre a vida de pescadoras, pescadores, marisqueiras, catadoras de mangaba, quilombolas, ribeirinhos/as, agricultores/as e outras pessoas que têm a reprodução da vida em simbiose com os mares, rios, mangues e territórios tradicionais pesqueiros.

Apesar da envergadura do problema e das denúncias de populações da zona costeira, cientistas, pesquisadores/as e ativistas ambientais, somente após um mês do aparecimento das primeiras manchas na linha de praia no litoral nordestino é que o tema foi noticiado pela mídia de alcance regional e passou a ocupar espaço na agenda das autoridades públicas nos âmbitos municipal, estadual e federal. Já nos veículos de alcance nacional as primeiras notícias só vieram aparecer em meados de outubro de 2019. Além da demora em colocar a questão no centro da agenda política, chamou atenção a ausência de menção, nas notícias da mídia e nas falas de autoridades, ao conjunto de Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) diretamente impactados pelo derramamento de petróleo.

“A mídia no máximo fala sobre os animais. Só fala que a tartaruga vai morrer, que o peixe-boi vai morrer, e nós? E os pescadores e nós marisqueiras que vivemos destas águas? Como é que sustenta nossas famílias com esse vazamento? Nós pescadoras e marisqueiras também temos vida, também temos importância. O mangue é a vida da marisqueira. A maré é a vida do pescador”,

denunciou liderança do Movimento de Marisqueiras de Sergipe durante escuta realizada pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), em missão co-coordenada pelo Intervozes em outubro de 2019.

Partindo dessa provocação, a quarta edição da série Vozes Silenciadas analisa sete veículos da mídia de abrangência nacional e quatro da mídia regional para analisar as narrativas em torno do desastre socioambiental. A extensiva pesquisa se deteve sobre a cobertura dos seguintes jornais impressos: O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo, A Tarde (BA), Jornal do Commercio (PE), O Estado do Maranhão (MA) e Diário do Nordeste (CE). Além deles, analisou-se a cobertura da Agência Brasil, agência de notícias da EBC, empresa pública de comunicação, e os televisivos Jornal da Record (Record TV), Jornal Nacional (Rede Globo) e SBT Brasil (SBT).

A série Vozes Silenciadas é uma linha de pesquisa do Intervozes voltada à cobertura da mídia sobre temas conjunturais de relevância para a sociedade brasileira. A série parte do princípio de que os meios de comunicação de massa e, especificamente, as empresas de mídia, cumprem papel fundamental no agendamento de temas, na formação da opinião pública e na construção de sentidos sociais para os fatos. Para o Intervozes, compreender os discursos produzidos pelas empresas de mídia apreendendo quais são os enquadramentos e as vozes ouvidas e as silenciadas é tarefa fundamental para se fazer uma leitura aprofundada da conjuntura. A série chega à sua quarta edição após se debruçar sobre a cobertura da mídia a respeito do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Edição 1, 2011), dos protestos de junho de 2013 (Edição 2, 2013) e da Reforma da Previdência do governo Bolsonaro (Edição 3, 2019).
A análise agora realizada aponta para alguns padrões e semelhanças na cobertura da mídia de abrangência regional e nacional. Chama atenção o atraso na cobertura do vazamento de petróleo pelos veículos. Tanto os nacionais quanto os regionais demoraram quase um mês para noticiar o aparecimento de manchas misteriosas no mar, quando estas já estavam visíveis na costa de cidades nordestinas. Além do atraso, nota-se uma interrupção abrupta da cobertura do assunto pela mídia, antes mesmo de a sociedade saber: “quem foi responsável pelo derramamento de petróleo?”; “como está a vida e sobrevivência dos/as pescadores/as e marisqueiras/os pós-tragédia?”; “há voluntários com doenças adquiridas durante a limpeza das praias?”; “houve impactos na saúde dos banhistas?”; “quantos animais marinhos morreram pelo petróleo?”; e “qual o destino final dos resíduos/petróleos retirados dos mares, rios e mangues?”. São perguntas ainda sem respostas.
As matérias e reportagens também tiveram como característica o recorrente uso de fontes oficiais, tendo nestas quase como ancoradouro dos textos, num padrão que convencionou-se chamar de “jornalismo declaratório”. A adoção e repercussão acrítica de declarações e teorias conspiratórias do Governo Federal, por exemplo, foi marca de alguns dos veículos analisados, chegando ao auge quando tuítes do presidente Jair Bolsonaro ou do Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles com acusações não comprovadas sobre a origem do petróleo pautaram por dias e dias a cobertura, algumas vezes sem nenhum contraponto.
Retomando o questionamento que motivou a pesquisa é patente a invisibilidade dos Povos e Comunidades Tradicionais, como pescadores/as e marisqueiras/os – categorias dramaticamente atingidas pelo desastre socioambiental, por terem os mares, mangues e rios como fontes de vida e sustento. Verifica-se, por exemplo, que a referência ou nomeação de “pescadores/as” e “marisqueiros/as” é quase que apagada dos títulos dos jornais impressos estudados.
Um dos dispositivos mais eficazes para submeter os povos a uma falsa superioridade cultural é por meio da linguagem; desta forma, negar-lhes o direito à voz, a serem fonte numa questão tão afeita a vida destes homens e mulheres, é, de certa feita, negar-lhes o predicado de sujeitos e sujeitas da história e excluí-los de participação na vida democrática.

Jornais Impressos

241

Conteúdos não opinativos

A Tarde

54 conteúdos

O Globo

16 conteúdos

O Estado do Maranhão

32 conteúdos

Folha de São Paulo

45 conteúdos

Jornal do Commercio

45 conteúdos

Diário do Nordeste

18 conteúdos
Telejornais

57

Conteúdos não opinativos

Jornal Nacional

28 conteúdos

SBT Brasil

9 conteúdos

Jornal da Record

20 conteúdos
Webjornalismo

52

Conteúdos não opinativos

Agência Brasil

52 conteúdos

A pesquisa

passos metodológicos, questões e objetivos

Nos casos dos veículos de abrangência nacional analisados, tanto os impressos quanto os televisivos, e da Agência Brasil, o recorte temporal desta pesquisa contemplou cinco períodos, a saber:

1) os primeiros dias de aparecimento das manchas de petróleo (30 de agosto a 7 de setembro de 2019); 2) o primeiro mês da chegada do petróleo nas praias (30 de setembro a 5 de outubro de 2019); 3) a semana na qual foi anunciado que o petróleo era Venezuelano e o Greenpeace realizou um ato público em Brasília, gerando reações controversas do governo federal (23 a 30 de outubro de 2019); 4) o período em que a Polícia Federal apontou como suspeito pelo vazamento um navio de origem grega (1 a 9 de novembro de 2019); 5) a semana de início da Medida Provisória nº 908/2019, a qual instituiu o auxílio emergencial aos pescadores artesanais (29 de novembro a 7 de dezembro de 2019). No caso dos quatro jornais regionais analisados, o Corpus reunido foi o de matérias e reportagens publicadas no período corrido de 30 de agosto a 30 de novembro de 2019.

O escopo da análise contemplou mídias impressa, televisiva e digital, com veículos de natureza comercial e pública, com circulação nacional e regional. Entre os impressos do primeiro grupo estão os jornais Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo. Os programas jornalísticos de TV foram o Jornal Nacional, o Jornal da Record e o SBT Brasil. A novidade desta edição foi a inclusão da Agência Brasil, agência de notícias que integra a Empresa Brasil de Comunicação das mídias de circulação regional. No rol dos veículos regionais analisados estão: Diário do Nordeste (Ceará), Jornal do Commercio (Pernambuco), A Tarde (Bahia) e o Estado do Maranhão (Maranhão). Os critérios para a seleção desse conjunto de veículos foram a audiência nos seus segmentos e a circulação/tiragem nacional e local.
A análise qualitativa se ateve aos materiais jornalísticos não opinativos. Desses, 241 estavam nos veículos impressos, 57 nos telejornais e 52 no webjornalismo da Agência Brasil, totalizando 350 conteúdos analisados.

De natureza quantitativa e qualitativa, a metodologia empregada para a análise dos conteúdos acima contemplou dimensões semânticas e sintáticas. Na definição de Martin Bauer:

Procedimentos sintáticos enfocam os transmissores de sinais e suas inter-relações. A sintaxe descreve os meios de expressão e influência — como algo é dito ou escrito. (…) Os procedimentos semânticos dirigem seu foco para a relação entre os sinais e os seus sentidos — sentidos denotativos e conotativos em um texto. A semântica tem a ver com “o que é dito em um texto?”, o tema e as avaliações. (BAUER, 2002, p. 192-193)

Assim, foi realizado, primeiramente, o levantamento dos materiais veiculados no período de análise selecionado. Esses foram:
1. Classificados por sua natureza: matéria (material noticioso de cunho factual), reportagem (abordagem mais aprofundada de um tema e nem sempre vinculada ao factual), notas, editoriais, artigos e crônica;
2. Indexados por data e editorias, destacando também a presença de chamadas nas capas dos impressos.
Os critérios de análise sintática dos conteúdos desta pesquisa corresponderam, portanto, à localização dos materiais nos veículos estudados e ao espaço/tempo dedicado ao assunto. No caso dos conteúdos televisivos, realizou-se a minutagem dos mesmos.
Já nos impressos a medida de análise foi o espaço ocupado na página, com exceção dos conteúdos veiculados na Folha de S. Paulo, os quais não estavam disponibilizados em versão flip, imagem ou pdf.

Nesse último caso, foi realizada a contagem dos caracteres com espaçamento, considerando o título. O mesmo procedimento foi adotado para a Agência Brasil. Igualmente se considerou a presença do assunto em escaladas e capas.
Já a dimensão semântica, para responder à pergunta central desta pesquisa, “quais vozes foram silenciadas?”, contemplou como critérios de análise prioritariamente os ganchos temáticos dos conteúdos e as fontes consultadas. A partir desses, ainda foram identificadas a presença (ou não) de controvérsias e de menções a legislações ambientais e a pesquisas científicas.
Esses dados foram tabulados, organizados por veículos e cruzados para fornecer uma análise consistente da cobertura da mídia acerca do derramamento de petróleo. Os resultados evidenciam mais do que o silenciamento dos Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) nos locais atingidos: reiteram a necessidade de o jornalismo, enquanto campo social, rever suas práticas arraigadas de produção noticiosa, além de alertarem, pelo tratamento do assunto, sobre os riscos à comunicação pública da fusão da EBC, empresa pública, com a NBR, TV estatal, que aconteceu em abril de 2019.
A pesquisa contou com a coordenação de quatro pesquisadoras/es, além de quatro assistentes. Também colaboraram com a publicacão três articulistas: Débora Britto; Sônia Guajajara, e Elionice Sacramento. As fotos que integram esta pesquisa foram gentilmente cedidas por Inês Campelo e Janaína Santos. A todas as trabalhadoras e trabalhadores que colaboraram, o agradecimento do Intervozes. Os perfis de cada um/a são apresentados na página final desta publicação.

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O vazamento de petróleo nas páginas de jornais impressos

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O vazamento de petróleo nos noticiários televisivos

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A mídia pública e o vazamento de petróleo: análise da Agência Brasil