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Reflexões sobre direito à comunicação e justiça socioambiental

Óleo no Nordeste: quem tem direito a falar e ser ouvido em uma tragédia sem precedentes?

Por Débora Britto
Jornalista e repórter da Marco Zero Conteúdo. Faz parte do Terral Coletivo de Comunicação Popular e constrói o Fórum Pernambucano de Comunicação (Fopecom).

Quando o petróleo cru chegou à primeira praia do Nordeste, em 30 de agosto de 2019, poucas pessoas poderiam prever a extensão do desastre ou a complexidade do que se tornou o maior crime ambiental do gênero no Brasil. Desde o primeiro momento, no entanto, o derramamento do óleo nas praias na costa brasileira tinha como vítimas e principais atingidas comunidades e povos tradicionais que vivem do mar. Ainda assim, essas populações demoraram a se fazer ouvidas pela mídia, mesmo a mídia independente.
Mais de mil praias, manguezais, rios e outras áreas foram atingidas pelo petróleo, até fevereiro de 2020, segundo dados do Ibama. Todos os estados do Nordeste, além do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, foram afetados. Os impactos do óleo que chegou às praias não são totalmente conhecidos até hoje, assim como a origem do derramamento e os responsáveis pelo crime.
Para as populações de pescadores, pescadoras, marisqueiras, comunidades e grupos que vivem das águas, as consequências se fazem presentes desde que a notícia se espalhou. Primeiro, com a impossibilidade de trabalhar, depois, com a negação de direitos e o silenciamento de suas realidades.
A demora em noticiar os acontecimentos no Nordeste é um ponto crucial para entender os fluxos e dinâmicas das coberturas jornalísticas do crime do óleo no Brasil. Veículos de mídia hegemônica comercial nacional só despertaram para a relevância do fato noticioso em setembro, praticamente um mês após as manchas de petróleo chegarem com maior volume e intensidade às praias nordestinas.

Os jornais regionais, reproduzindo uma dinâmica similar, e parecendo atuar numa lógica de cadeia, passaram a noticiar o ocorrido com frequência na esteira dos veículos nacionais. A proximidade com o fato noticiado não pareceu ser critério suficientemente relevante para que o vazamento virasse furo nos regionais antes mesmo de sair nos grandes veículos e nas cabeças de rede nacionais. Após um primeiro silêncio, porém, os veículos regionais passaram a reportar de maneira frenética a chegada do óleo à medida que acompanhavam seu rastro de destruição praia a praia. A explosão de notícias se confundia com a incerteza e a expectativa pela chegada em uma nova área. “Quando deve chegar em tal praia?” era a pergunta que muitas pessoas se faziam.
No caso da mídia independente, essa demora se deveu, em parte, à incerteza acadêmica sobre as causas e a origem do derramamento. E mesmo a mídia independente local não foi capaz de furar a espiral de silêncio instaurada no primeiro mês do ocorrido.
Outros aspectos ajudam a compreender como, recorrentemente, vozes foram silenciadas no maior crime ambiental do tipo já registrado no Brasil.
Que experiências são legitimadas como notícia pela mídia comercial? Como contabilizar as perdas de práticas de vida, culturais, a relação com território de comunidades e povos tradicionais? Essas questões acompanham a reflexão sobre as potencialidades e desafios do jornalismo independente e local em uma cobertura de grande escala. Quando lidamos com um evento sem precedentes, que caminhos seguir? O que é possível fazer para furar a bolha e pautar criticamente os fatos? Quem tem direito a falar e ser ouvido em uma tragédia nunca antes vista?

O jornalismo no rastro do óleo

A deliberada tentativa do governo federal de desviar o foco da materialidade do problema também surtiu efeito na imprensa comercial e hegemônica. Como ondas, a cobertura jornalística, tanto nos veículos regionais quanto nos de alcance nacional, voltou-se às declarações do presidente Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que guardaram mais semelhança com a fumaça das queimadas na Amazônia do que com qualquer indício de racionalidade.
Quando a Amazônia queima, são ativistas os responsáveis. Quando as praias do Nordeste são contaminadas e manchadas por um volume de petróleo inédito na história, o presidente se cala. E a cobertura jornalística seguiu à risca as fontes oficiais em seus delírios, dando espaço e repercussão a distrações. Observamos picos de cobertura a partir de declarações, mas quase nenhuma busca pelo impacto no dia a dia de quem primeiro sentiu os efeitos do petróleo: pescadores, marisqueiras, comunidades tradicionais pesqueiras. Nos veículos nacionais, essas populações quase não foram ouvidas.

A questão colocada para o jornalismo a partir dessa experiência é: como politizar a cobertura sem cair na armadilha de apenas responder e criar palco para a verborragia de gestores que ignoram estudos e instituições científicas?

Diante da limitação financeira e logística, veículos de jornalismo independentes, locais, puderam explorar uma outra abordagem. Política, sim, mas em busca de fatos e especialistas que pudessem questionar as versões oficiais — e sem dados — fornecidas pelo governo federal.

A cobertura da Marco Zero Conteúdo (marcozero.org), site de jornalismo independente com sede no Recife, em Pernambuco, um dos primeiros estados a serem atingidos pelas manchas de petróleo, é uma experiência singular de uma cobertura local, que pareceu conseguir furar a onda jornalística que se lançou no rastro do óleo no Nordeste. O veículo, que se define como “um coletivo de jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público”, existe desde 2015 e acompanha pautas locais com repercussão regional e nacional a partir dos direitos humanos.
Com 39 matérias, reportagens e entrevistas publicadas sobre o tema, a cobertura jornalística pode ser analisada em dois momentos. No primeiro, caracteriza-se o esforço de noticiar as primeiras manchas que chegaram às praias de Pernambuco e Paraíba, ainda sem dimensão da tragédia e do crime ambiental. Durante essa primeira fase, a cobertura focou nos responsáveis pelo derramamento, a partir de fontes oficiais, além da busca por informações de pesquisadores e especialistas confiáveis sobre o desastre e seus impactos.

Em um segundo momento, quando é possível dizer que se trata de um evento sem precedentes e que não há parâmetros para tal cobertura, a edição e a reportagem tomam a decisão de voltar o foco para as pessoas atingidas pelo crime. O objetivo de acompanhar a questão socioambiental em vez de correr atrás da questão criminal é um acerto, enquanto a imprensa comercial focou energia em buscar o rastro do óleo.
A incapacidade de resposta ao crime, com o desmonte de órgãos de controle pelo governo de Bolsonaro, foi noticiada com atraso. Após a repercussão, as citações ao Plano Nacional de Contenção (PNC), por exemplo, sumiram gradualmente.
Na entrevista publicada no dia 11/10/2019, a Marco Zero ouviu Yara Schaeffer Novelli, doutora e professora sênior da Universidade de São Paulo (USP), considerada uma das mais experientes peritas em danos ambientais por vazamentos de óleo no país. A pesquisadora retoma o tema e explica como, e possivelmente por que, a legislação foi ignorada. A entrevista foi a primeira a furar a bolha local, do jornalismo independente, e provocar uma corrida da mídia hegemônica para ouvir especialistas qualificados que questionassem as nebulosas informações oficiais.
A entrevista foi resultado de mais de um mês de envolvimento dos jornalistas da Marco Zero com pesquisadores de universidades, institutos e servidores de órgãos públicos que não tinham respostas prontas para as inúmeras perguntas que o desastre trouxe. O investimento na investigação criteriosa, portanto, foi decisivo para direcionar o olhar crítico da cobertura.

Desconstruir o nordestino heroico e outros mitos

É importante frisar que entender qual a melhor estratégia para um veículo local em uma cobertura desse porte é ainda um desafio, tanto quanto uma aposta. Não existe fórmula pronta a ser aplicada, mas indícios que ajudam a vislumbrar como o jornalismo independente pode crescer e se fortalecer no ecossistema midiático. Aliada à estratégia de pautar as consequências para as pessoas atingidas, quando não se tem condições de competir com a cobertura de redações com dezenas de repórteres, a Marco Zero Conteúdo buscou pautar a questão científica por meio de pesquisadores e especialistas que contestam, com independência, as versões ou declarações sem base do governo federal.
A primeira matéria do veículo sobre este assunto, em 14 de setembro de 2019, já dava conta do que se tornou, por cerca de um mês, um mistério. O episódio do aparecimento da primeira mancha, no litoral da Paraíba, em 30 de agosto de 2019, e, em seguida, a chegada em praias pernambucanas, foi tratado pelo Ibama como um fato isolado. A informação foi passada em coletiva de imprensa no Recife. A imprensa local reproduziu a informação transmitida sem questionar, mas a abordagem da Marco Zero apontou para o conflito entre versões do Ibama (governo federal) e órgãos estaduais, além de grupos ambientalistas e ativistas locais.
Para a jornalista que esteve à frente da cobertura, Raissa Ebrahim, desde a primeira reportagem um dos principais desafios foi entender como buscar um outro olhar, para além da narrativa oficial e do release, para uma questão a que poucas pessoas tinham respostas. Cientistas e hipóteses foram refutados por outros cientistas, teorias se tornaram manchetes para em seguida

serem desmontadas e representantes do governo federal aderiram à dinâmica irresponsável e inconsequente do presidente da República, marcada por uma estratégia de produzir ativamente desinformação: o ministro do Turismo, em viagem a Pernambuco, entrou em uma praia atingida pelo petróleo com água até o tornozelo para fazer uma foto e garantir que o banho era seguro. Sem qualquer estudo para comprovar.
Sob a perspectiva de pautar criticamente o desastre e seus desdobramentos, a reportagem “Sem ajuda do governo federal, óleo está sendo contido por voluntários, ambientalistas e pescadores” denunciou a realidade violenta — e não romântica — do esforço civil para a limpeza das praias. A imagem do nordestino forte, heroico, que pode parecer positiva ao chamar atenção para o problema, acaba reforçando o que a jornalista e professora da Universidade Federal de Pernambuco Fabiana Moraes chama de imagem-bumerangue. Segundo a pesquisadora, “aquela que, apesar dos anos, das novas plataformas de informação, dos novos jornalistas, dos novos governos, sempre volta. E essas imagens do Nordeste retornam tanto para nos garantir que estão ali, intactos, aqueles que precisam ser salvos, quanto por se tratar da região em constante e histórico ataque mantido pela omissão governamental”.
Como questionar uma ideia que volta a silenciar as pessoas nordestinas, desta vez pescadores, marisqueiras, povos do mar, quando a maré de mobilizações espontâneas na Internet canaliza, sim, uma importante atenção para o tema?
Como abrir espaço para o jornalismo crítico, independente, que questiona a reprodução do nordestino guerreiro, resiliente, que retira com os próprios braços o resultado de um crime do qual é vítima?

Um desafio concreto para o jornalismo nativo digital é o alcance. Esse aspecto não pode ser negligenciado em tempos de disseminação automatizada de desinformação. Por muito tempo, as narrativas contra-hegemônicas produzidas circularam em um grupo restrito, com dificuldade de alcançar outros círculos de leitores. Como pautar o debate público a partir de uma bolha?

Que desafios o jornalismo independente enfrenta para alcançar vozes historicamente silenciadas?

A partir do local, a possibilidade de chegar às pessoas atingidas pelo derramamento do petróleo é um caminho que poderia ser considerado óbvio. Mas não é.
Na mídia hegemônica, um dos padrões observados é a pouca visibilidade às mulheres atingidas pelo crime ambiental. Entre pescadoras e marisqueiras, as últimas sequer são grupo social citado pela imprensa comercial.
Durante a cobertura, em ao menos nove matérias a Marco Zero Conteúdo abordou a condição de comunidades pesqueiras e marisqueiras em meio às consequências do derramamento de petróleo: falta de recursos, impossibilidade de trabalhar e desamparo de políticas públicas. Em uma delas, a reportagem “À beira da fome, pescadores e marisqueiras seguem sem auxílio após vazamento de óleo”, de Raissa Ebrahim, expõe a situação extrema a que famílias de pescadores chegaram.
“Enquanto convivem com o peso da omissão, homens e mulheres estão com medo de não conseguirem mais viver da atividade pesqueira, com séculos de tradição repassada de geração a geração. Pouco adianta correr para outra ocupação porque a situação do desemprego não deixa. A única iniciativa de auxílio oferecida até o momento foi a antecipação do seguro defeso, que, em Pernambuco, só vale para quem pesca lagosta. Hoje, faz exatamente 60 dias que as primeiras manchas de óleo apareceram, na Paraíba, e as soluções seguem sem previsão”.
Na matéria, a repórter escuta e cita quatro mulheres que vivem da pesca. Elas contam o drama que vivem, o impacto para o orçamento familiar, o peso da ausência de políticas públicas. Cita também fontes e dados produzidos pela sociedade civil que ilustram o tamanho da tragédia e do crime. A reportagem é um bom exemplo, ainda, de um jornalismo que enxerga valor nas vozes e vidas atingidas, que são, por outro lado, sistematicamente deslegitimadas pelo jornalismo hegemônico — funcionam para ilustrar a imagem-bumerangue, o desejo vazio de ação de piedade de quem assiste à tragédia pela tela do computador ou do celular. O jornalismo independente pode, aqui, desvincular-se das práticas dos jornalões: ouvir e fortalecer sujeitos e sujeitas historicamente silenciados/as, sem perder o horizonte crítico.