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Reflexões sobre direito à comunicação e justiça socioambiental

Povos indígenas – a realidade que não chega nos jornais

Por Sônia Guajajara

A complexidade e a gravidade da situação dos povos indígenas em meio à pandemia assustam. Cobrir o avanço da Covid-19 não se trata apenas de contabilizar infectados e mortos, requer revisitar uma série de violências praticadas ao longo da história brasileira. Neste artigo explicamos como a invisibilidade das pautas indígenas na imprensa contribui para a vulnerabilidade dos povos originários.

Antes, vale destacar que este texto apresenta reflexões a partir do cenário de pandemia do novo coronavírus, mas as análises aqui feitas convergem com observações verificadas também no modo como a mídia brasileira cobriu, no segundo semestre do ano passado (2019), o vazamento de petróleo no litoral brasileiro. A estratégia de invisibilidade deste momento atual se deu também com o silenciamento de indígenas e outros povos e comunidades tradicionais impactados por aquela que foi uma das maiores tragédias ambientais do país. A opção por tratar aqui da Covid-19 parte, portanto, da compreensão de que a invisibilização desses povos se dá não como fatos episódicos, mas como parte de uma estratégia de negação da diversidade brasileira, que pode ser percebida em diferentes momentos.

À medida que a Covid-19 avança sobre o país, as desigualdades sociais se evidenciam e se tornam decisivas para a fatalidade da doença. Obviamente, as populações mais vulneráveis são as mais dependentes de políticas públicas para garantir sua sobrevivência em meio à pandemia do novo coronavírus. A taxa de letalidade, por exemplo, calculada com base na quantidade de óbitos entre infectados, é maior entre os povos originários do que entre a população brasileira não indígena, 12,6% e 6,4% respectivamente. De acordo com dados do Ministério da Saúde, até 22 de maio de 2020 o Brasil registrou 330 mil casos e 21 mil mortes. Já o Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena contabilizou 61 povos atingidos pela doença, somando-se 125 indígenas falecidos e 987 infectados.

A invisibilidade dos problemas enfrentados pelos povos indígenas para garantir sua subsistência neste momento é também um reflexo da vulnerabilidade a que estão submetidos. Em relação à imprensa brasileira, sentimos necessidade de uma cobertura ampla e contínua que se aprofunde nas violências históricas sofridas por povos originários — agora, agravadas com a pandemia —, ou mesmo empenhada em reportar como os povos indígenas estão se organizando por conta própria para não perder mais nenhum parente.
Diante da ineficácia do poder público em agir para conter o aumento de casos e óbitos, realizamos a Assembleia Nacional de Resistência Indígena para criar um plano de enfrentamento à Covid-19, alinhado às nossas urgências. Mesmo assim, continuamos a denunciar os ataques via manobras jurídicas que seguem as tentativas de retirada dos nossos direitos e os ataques sofridos em nossos territórios.
Enquanto a imprensa opta por divulgar cada impropério dito pelo presidente da República e cada absurdo cometido por apoiadores, sua base política nas casas legislativas desfigurou o Projeto de Lei 1142/20, que prevê medidas de apoio aos povos indígenas em decorrência da pandemia. No Judiciário, o Parecer 001, da Advocacia Geral da União, tem sido utilizado por ruralistas, endossados pelo governo Bolsonaro, para prejudicar as demarcações de terras indígenas que estão em andamento.

Veículos tradicionais optam por narrativas de conjuntura, ignorando que recortes raciais, como no caso dos indígenas, são necessários para compreender quem são as principais vítimas da negligência do governo federal em liderar uma ação coordenada de combate à Covid-19. Por isso, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) coordenou a criação da Quarentena Indígena, uma coalizão indígena e indigenista composta por lideranças locais, comunicadores, pesquisadores e ativistas para acompanhar o impacto da propagação do novo coronavírus entre nossos povos.
Outra questão fundamental na cobertura da imprensa nacional sobre a situação dos indígenas é priorizar dados oficiais da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), vinculada ao Ministério da Saúde. Entendemos que os critérios adotados pela Sesai levam à subnotificação, uma vez que registram apenas indígenas aldeados. Excluir indígenas que vivem em contexto urbano da contagem “oficial” revela um racismo institucional por limitar nossa vivência. Para além de subverter essa narrativa e registrar todas as vítimas indígenas, a criação do Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena foi pensada para evocar a memória daqueles que não resistiram.
Uma de nossas lideranças, Célia Xakriabá, explica: “Do luto à luta. Não é somente número, cada corpo Indígena tem uma encantaria ancestral. A cada Indígena morto, morre parte da nossa história coletiva. Enterrar um parente pelo genocídio em massa é enterrar mais um corpo que luta por direito. A cada Indígena derrubado é uma árvore que é ameaçada”.

Apesar da invisibilidade a nível nacional, o esforço de veículos especializados na cobertura ambiental e das populações tradicionais tem demonstrado como é possível realizar uma abordagem jornalística com profundidade, como fez a agência Amazônia Real. A Amazônia é a região com maior número de vítimas da Covid-19 entre indígenas — sendo o Amazonas o estado com a situação mais grave.
Há que se destacar também novas iniciativas como o Inumeráveis, site voltado para contar a história dos falecidos pelo novo coronavírus a partir do olhar de entes queridos. Com base no trabalho de jornalistas voluntários em parceria com a Apib, o projeto passará a dispor de relatos sobre nossos parentes como forma de homenageá-los para manter viva a história dos povos indígenas brasileiros.
A diretoria da Apib entende que é primordial estabelecer diálogo com o jornalismo local e tem iniciado um trabalho nesse sentido. A partir do mapeamento realizado pela pesquisa Atlas da Notícia, identificamos e analisamos veículos de imprensa local para estabelecer um diálogo visando a difusão das informações sobre a situação dos povos indígenas.
Entendemos que é importante ocupar espaços tradicionais no jornalismo; no entanto, precisamos chegar aonde os grandes não chegam. Pensamos nossa comunicação de forma estratégica com a perspectiva de quem é retratado historicamente de forma ignorante ou estereotipada. Precisamos que o Brasil conheça o Brasil dos povos originários, e isso requer uma imprensa comprometida com a ética, com a defesa dos direitos humanos e em denunciar autoritarismo e opressão.